CUT-SC

Com unidade, emoção e disposição de luta, cerca de 100 mulheres de diversas regiões de Santa Catarina participaram, nesta sexta-feira (24) e sábado (25), em Florianópolis, do Encontro Estadual de Mulheres CUTistas. Durante dois dias de intensos debates, formação política e construção coletiva, trabalhadoras e dirigentes sindicais reafirmaram que não haverá democracia plena, justiça social e valorização da classe trabalhadora sem a participação ativa das mulheres nos sindicatos, nos espaços de poder e nas decisões sobre os rumos da sociedade.

O encontro foi marcado por falas potentes, intervenções emocionantes e relatos de companheiras que sofreram ou presenciaram situações de violência, além de inúmeras contribuições sobre os desafios de ser mulher no movimento sindical e nos espaços de poder.

Violência contra as mulheres e autonomia econômica abriram os debates

Na primeira mesa, Eliane Chaves, delegada titular da Delegacia de Proteção à Criança, Adolescente, Mulher e Idoso (DPCAMI) de Araranguá, abordou as violências visíveis e invisíveis sofridas pelas mulheres e destacou que o enfrentamento ao problema exige compromisso coletivo. Segundo ela, combater a violência contra as mulheres não é responsabilidade apenas das vítimas ou das instituições especializadas, mas de toda a sociedade.

Na sequência, Joana Passos, Secretária Nacional de Autonomia Econômica e Política de Cuidados do Ministério das Mulheres, destacou que a autonomia econômica é fundamental para romper ciclos de violência, já que muitas mulheres permanecem em relações abusivas por dependência financeira. Joana também reforçou a importância da ocupação dos espaços de poder pelas mulheres, com coragem e protagonismo, e defendeu fiscalização efetiva para o cumprimento da Lei de Igualdade Salarial, que garante remuneração igual para trabalho de igual valor.

Redução da jornada e desigualdade no trabalho marcaram o segundo dia

No sábado (25), a economista Marilane Teixeira, doutora em Desenvolvimento Econômico e Social pela Unicamp, apresentou dados sobre jornada de trabalho e desigualdade de gênero. Segundo os dados expostos, cerca de 75% das pessoas ocupadas no Brasil trabalham 40 horas ou mais por semana. Embora proporcionalmente menos mulheres estejam nas jornadas mais longas, elas seguem sobrecarregadas porque dedicam, em média, 21 horas semanais ao trabalho doméstico e de cuidados não remunerados.

Marilane destacou ainda que cerca de 22 milhões de pessoas trabalham acima de 45 horas semanais no país, sendo aproximadamente 40% mulheres. Para ela, a redução da jornada é estratégica, mas precisa vir acompanhada de medidas que enfrentem a desigualdade na divisão das tarefas domésticas “Não adianta reduzir a jornada para que os homens tenham mais lazer, enquanto as mulheres apenas ganham mais tempo para seguir trabalhando em casa”, sintetizou.

Também na mesa, Crystiane Peres, supervisora do DIEESE em Santa Catarina, apresentou dados do mercado de trabalho catarinense com recorte de gênero. Segundo ela, aproximadamente 1,4 milhão de mulheres em Santa Catarina estão fora da força de trabalho, e uma das principais razões apontadas é a responsabilidade com cuidados e afazeres domésticos.

Crystiane também mostrou que, entre as mulheres com vínculo formal no estado, 860 mil trabalham mais de 40 horas semanais, o equivalente a 65% do total, reforçando a importância do debate sobre redução da jornada sem redução de salários.

Encaminhamentos e compromisso coletivo

Na etapa final do encontro, houve a apresentação das pré-candidatas do campo CUTista presentes na atividade. Em seguida, a educadora da Escola Sindical Sul, Tayliny Silva, apresentou o Protocolo de Prevenção e Ação em Casos de Discriminação, Assédio e Violência da CUT, instrumento voltado à prevenção e ao combate de condutas inaceitáveis, especialmente contra as mulheres, com a proposta de adoção por todas as entidades CUTistas.

O encontro encerrou com a leitura e aprovação da Carta de Compromisso das Mulheres CUTistas de Santa Catarina, documento político construído a partir das ideias e debates do encontro. No texto, as participantes afirmam que seguirão lutando “em todas as frentes para fazer valer nossos direitos inegociáveis à liberdade e à igualdade” e defendem que “a igualdade de gênero e racial precisam andar juntas”.

Entre os compromissos assumidos estão:
- fortalecer a organização das mulheres CUTistas em Santa Catarina;
- combater toda forma de violência, assédio e discriminação;
- ampliar a participação das mulheres nos sindicatos e espaços de decisão;
- lutar pela redução da jornada sem redução salarial e pelo fim da escala 6x1;
- defender políticas públicas de cuidados e autonomia econômica;
- enfrentar a misoginia, o racismo, a LGBTfobia e os discursos de ódio.

O Encontro Estadual de Mulheres CUTistas encerrou com uma mensagem de unidade: quando as mulheres avançam, toda a classe trabalhadora avança.